O pequeno comércio deseja um único terminal para todos os cartões de todas as bandeiras, mas, por enquanto, isso só é realidade para as grandes redes de varejo.
Só falta a designação de um relator para que o Projeto de Lei 677/07, do senador Adelmir Santana (DEM-DF), passe à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. No mês passado, o projeto foi aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT). Poderia até se transformar em Lei ainda este ano, se não houvesse eleições. Até o ano que vem, estará aprovada e, então, pequenos comerciantes poderão começar a sonhar com as mesmas facilidades de meios de pagamentos das grandes redes: um único terminal para todos os cartões de todas as bandeiras."Tecnologia nós já temos, mas hoje só funciona para as grandes lojas", disse Adelmir Santana no dia em que seu projeto foi aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia.
Todo grande supermercado, loja de grande rede, cinema ou estabelecimento acima de certo faturamento já utiliza um sistema mais sofisticado. Chama-se TEF - Transferência Eletrônica de Fundos. Requer computador, impressora fiscal, teclado e leitor especiais e uma linha, eventualmente dedicada, para conexão com a administradora do cartão, o que quer dizer mais custos. É o caso, por exemplo, da UCI Cinemas. Com a clientela diversificada, que vai aos cinemas dentro ou fora de shoppings, seria impraticável ter várias maquininhas para cada bandeira, como diz Marcelo Menescal, diretor de TI da empresa.
"Com o TEF, a transação é muito rápida, mas precisa certa infra-estrutura", diz ele.
Para o pequeno comerciante, utiliza-se o que no dia-a-dia se chama "maquineta". São os terminais de cartão, mais baratos para o comerciante e que já são unificados em países como México e Chile. Segundo explicou o senador, o objetivo é reduzir os custos para esses lojistas e, por conseqüência, para os consumidores. Hoje, como não pode arcar com os custos altos de um sistema grande, o comerciante de uma pequena lanchonete, por exemplo, é obrigado a usar os terminais POS (de point-of-sale, ou ponto-de-venda), que se encontram às dúzias nos estabelecimentos menores.
Eles são muitos porque cada um só se comunica com a sua administradora de cartões. Práticos e rápidos para as administradoras, os terminais únicos significam balcões atulhados, rotinas múltiplas e custos. Cada máquina custa dinheiro – as administradoras alugam os terminais por algo entre R$ 80 e R$ 150 mensais, dependendo da sofisticação do aparelho. Se o comerciante quer aceitar, por exemplo, Visa e American Express, já são duas máquinas. E um aluguel entre R$ 160 e R$ 300.
Custos altos - Ubiratan e Rizete Caliari gostariam muito de ter uma maquininha só em sua loja, a Suzana Malhas, que fica em Interlagos. Os dois, marido e mulher, são sócios de uma pequena loja típica, a começar pela sociedade familiar. Os dois sócios acham errado ter de pagar aluguel pelas máquinas de cartão pois, argumentam, já pagam taxas de serviço para as operadoras em cada transação. "Além disso, as administradoras impõem um prazo muito longo para o recebimento efetivo da venda, entre 40 e 50 dias, o que obriga a antecipar os recebíveis e, assim, pagar mais juros para os bancos", dizem eles.
A Suzana Malhas vende roupas em uma porta única e espaço limitado. A freguesia é razoável, mas não podem se dar ao luxo de ter mais do que duas máquinas, no caso Visa e Mastercard.
Ubiratan gostaria de ter uma da Amex, mas o custo seria proibitivo diante do número de vendas com cartões Amex. "Se aparecer um cliente com um cartão desses, é uma venda perdida", diz ele. O ideal seria poder aceitar qualquer cartão. Mas para aceitar todos ou eles instalam um TEF, o que o movimento não justifica, ou alugam maquininhas de todas as administradoras de cartões. Na verdade, se quisessem aceitar todas as bandeiras, seria infinitamente caro e complicado.
"No Brasil existem mais de 500 bandeiras de cartões", afirma José Roberto Boldin, sócio da SkyTEF, que fabrica terminais para grandes lojas.
Tanto POS como TEF usam Pin Pads. Portanto, o problema não é de aparelho. O problema é, como dizem Marcelo Teramae, da Gertec, e Júlio Vidotti, da revenda especializada BPSolutions, casar os protocolos. Cada administradora tem o seu. As maquininhas precisariam dar conta de processar centenas de protocolos, mudando na medida da demanda. Isso requer CPUs poderosas, por exemplo.
E, naturalmente, acordo entre as administradoras. Cada uma tem de testar a solução integral e garantir que não há furos. "As melhorias estão sendo naturalmente buscadas", diz Guilherme Blumenthal, diretor-executivo de Tecnologia da VisaNet Brasil. "Nossa empresa tem estudado as possibilidades de compartilhamento de POS, levando em consideração os limites e a viabilidade da infra-estrutura dos equipamentos", observa.
Há três anos, conta Teramae, Visanet, Redecard e Amex desenvolveram uma solução comum, na forma de uma biblioteca compartilhada. Iriam usar um protocolo único para os três, com as diferenças de identificação necessárias. O problema não é fazer, mas homologar. Cada fabricante tem de apresentar um certificado de um dos três laboratórios mundiais de pin pads. As próprias administradoras têm de testar a solução em confronto com seus próprios sistemas. E só então haverá uma maquineta que possa ser usada por todos os cartões. Para fazer o TEF foi assim: demorou cerca de dois anos alinhar os aplicativos e protocolos.
Por isso, não se anime ainda. Há um bom caminho pela frente. Mas o resultado final será mais economia, e mais vendas.
Fonte: Diario do Comércio 20/10/2008
Data da Publicação: 21/10/2008




